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maio 25, 2006

Bandeiras

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No outro dia cruzei-me com um programa americano de televisão em que durante uma temporada duas senhoras trocavam de famílias. Uma das senhoras era uma sulista, o estereótipo da americana conservadora que vota George W. Bush, não gosta de pretos e que acredita convictamente que os E.U.A. mais do que o centro do mundo, são o próprio mundo. A outra senhora vivia numa cidade da costa oeste, era a liberal típica, com cultura de intervenção cívica e 100% ecologista.

Na primeira semana que trocaram de casa viveram de acordo com os hábitos já estabelecidos mas passado esse tempo poderiam efectuar as mudanças que achassem necessárias (ou seja mudar as regras e impor a sua própria maneira de viver ao membros da outra família).

Curiosamente uma das medidas que ambas tomaram teve a ver com bandeiras, a sulista impôs uma bandeira americana à porta da “sua” nova casa como prova de nacionalismo e orgulho pela pátria enquanto a liberal mandou tirar a bandeira por ser uma prova bacoca de mostrar patriotismo e principalmente porque era uma grande foleirada. Juntar modos de vida tão distintos e maneiras de pensar tão diferentes só fez com que ambas as famílias se tornassem ainda mais radicais, acho que nenhuma delas tirou o que quer que seja de positivo com a experiência, mas eu tirei! A tolerância é talvez um dos valores principais que quero passar aos meus filhos.

Apesar de não me apetecer mostrar sinais exteriores de patriotismo e achar também uma grande foleirada, devo respeitar quem põe e vibra com a bandeirinha de Portugal na janela.

Publicado por amnésia às 11:26 AM | Comentários (6)

abril 30, 2004

Era uma vez...

... uma funcionária dedicada de uma grande empresa, uma funcionária que há largos anos vestia a camisola do seu departamento, sempre disponível para o que fosse preciso, nunca mostrava má cara nem virava as costas aos problemas.

Com uma vontade grande de aprender essa funcionária propôs à grande empresa fazer um curso, a empresa pagaria o curso e daria um dia da semana para que pudesse assistir as aulas, ela por sua vez compensaria essas horas nos restantes 4 dias e abdicaria de mais um dia ao fim de semana para assistir às restantes aulas. A resposta foi positiva, o director do departamento imediatamente apoiou e incentivou o projecto.

Entretanto o tempo foi passando, o inicio do curso cada vez mais próximo e a formalização por parte da grande empresa não havia maneira de aparecer. No dia do inicio do curso ainda nada estava tratado, a funcionária já desesperada foi falar de novo com o director do departamento para saber o que fazer. A resposta foi clara e objectiva, o processo estava a decorrer, havia burocracias e formalidades a cumprir e era tudo uma questão de dias, assim disse-lhe para que iniciasse o curso sem qualquer receio. A funcionária lá começou o curso louca de alegria e com grande ilusão.

O tempo ia passando e não havia resposta, a funcionária começou de novo a ficar preocupada. Passaram-se duas semanas do curso e a resposta tardava em chegar. Ao fim de muita insistência e passado três semanas finalmente fumo branco, foi chamada ao gabinete do director que lhe comunicou que a administração tinha rejeitado o pedido, a funcionária tinha um papel importante na empresa e por isso não poderiam abdicar de um dia para que pudesse assistir às aulas.

(continua nas próximas semanas e não é previsível um final feliz)

Publicado por amnésia às 10:53 AM | Comentários (3)

fevereiro 18, 2004

Asador 7 de Julio

Conheci o Pedro há dois anos e passados poucos minutos de o ter conhecido sabia que tinha feito um amigo, é daquelas coisas que não se explicam mas que por vezes acontecem. Depois de ter estado com ele 2 ou três vezes tinha a sensação de o conhecer de toda a vida. Quando venho a Valência lembro-me de ele, é por ele que eu estou neste momento aqui a trabalhar com esta empresa.
Dois meses depois de o conhecer, o Pedro foi ao médico ver o que se passava com uma dores de costas persistentes que tinha, depois de vários exames o veredicto foi o pior: cancro na próstata. O pedro sabia que tinha pouco tempo de vida mas mesmo assim nunca deixou de ser um optimista. Estava sempre com um sorriso nos lábios e nunca deixou de falar em projectos futuros. Contaram-me que quando já estava internado no hospital falava no afortunado que era em estar ali rodeado da família que ele adorava enquanto outras pessoas tinham que passar pelo mesmo sozinhas. O Pedro é uma grande referência para mim, um exemplo que eu gostava de seguir, o Pedro vive e viverá sempre no meu coraçao, foi alguém que ao longo de toda uma vida, mesmo perante as situações mais tramadas (ele e a mulher tiveram desempregados durante 2 anos e tinham 2 filhas pequenas) sempre acreditou que valia a pena ser positivo.
Quando venho em Valência faço questão de ir comer, uma vez que seja, ao Asador 7 de Julio, entrei lá pela primeira vez com o Pedro, é a maneira que encontrei de estar um bocadinho mais perto deste meu grande amigo.

Publicado por amnésia às 06:45 PM | Comentários (2)

dezembro 05, 2003

Às Vezes Há Justiça

Há uns anos atrás ouvi um sermão num casamento que me deixou completamente deprimido. Foi um sermão tão fora de contexto, tão infeliz, que sai da igreja e aguardei no exterior que a cerimonia acabasse.

O padre contou um caso que tinha acompanhado de um casal cheio de problemas em que o marido alcoólico, batia na mulher e nos filhos e como a mulher com uma doença crónica e o médico que a tratava se apaixonaram. A história acabava com a mulher, depois de muito rezar e reflectir, ficava com marido, sacrificando-se, como dizia o padre, de se realizar como mulher para se realizar como mãe.

Ontem deu-me para pensar neste episódio e na quantidade de gente válida que eu conheço que por um motivo ou por outro se deixam anular, desistem de lutar ou simplesmente se conformam com tudo o que de mau lhes vai acontecendo na vida. Fico triste que gente muito boa naquilo que faz não tenha uma oportunidade de ter uma vida digna só porque não são furões, não tem garra ou por vezes não tenham uma aparência igual ao vizinho do lado.

Depois de ter tropeçado, ter sido explorado e enganado toda a vida, JRS conseguiu mostrar o excelente profissional que é. JRS pode não ser a pessoa mais simpática do mundo, diplomacia não tem nenhuma mas não deixa de ser genuinamente boa pessoa e tecnicamente falando, na área dele, é fora de serie.

Infelizmente é 1 caso em 100, mas não deixa de ser gratificante saber que há excepções. Obrigado JRS por me mostrares que vale a lutar sem abdicar do que consideramos certo.

Publicado por amnésia às 04:52 PM | Comentários (4)

outubro 16, 2003

Uma Vida Normal

O João é porteiro num edifício de Lisboa, veio do Brasil e faz hoje 24 anos. Está em Portugal há 3 e a sua ideia é ficar cá mais 6 anos para juntar dinheiro suficiente para voltar para a sua terra.

Ele tem o sonho de construir umas tantas moradias e viver dos rendimentos do aluguer. O que sobrar é para investir em gado na fazenda do pai, segundo me diz o preço de 5 kg de picanha cá, no Brasil dá para comprar a vaca toda.

É raro o João não ter um sorriso nos lábios. Apesar de trabalhar 12h por dia, 6 dias por semana, apesar de não ter férias, nem feriados, é um tipo aparentemente feliz. Ele ganha bastante bem, sabe que nem todos os seus conterrâneos tiveram a mesma oportunidade, o que conta para o João é unicamente o dinheiro que consegue juntar para concretizar os seus objectivos.

A sua vida entretanto ficou em standby, provavelmente de Lisboa só conhece a parte da rua em que trabalha, provavelmente em Portugal só fez amizade com algumas das pessoas que trabalham no mesmo edifício de escritórios que ele.

O João optou por abdicar de 9 anos da sua vida com um único objectivo:

Ter uma vida normal.

Publicado por amnésia às 04:29 PM | Comentários (4)

setembro 23, 2003

O Windsurf e o Violoncelo

Este é um pequeno episódio contado na primeira pessoa por um amigo meu no sábado passado. Ele é professor de violoncelo no conservatório, e como toda a gente gosta de ser pago por aquilo que faz, todos os anos como funcionário público recebe o seu pequeno aumento de ordenado, mas...
Há uma possibilidade de ter um aumento de ordenado ainda maior!!!
Se subir de escalão passa a ganhar mais, para isso a única coisa que precisa de fazer é ter x horas de formação profissional por ano. O passo seguinte é ver para a área dele quais são os cursos disponíveis, depois de os analisar caso a caso finalmente optou por um: windsurf, 15 dias de formação em iniciação ao windsurf.

Será que é pelo fortalecimento dos membros superiores que o windsurf é útil para um professor de violoncelo? Uma pergunta a fazer ao ministério da Educação.

Publicado por amnésia às 05:57 PM | Comentários (1)