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abril 13, 2009

Esquizofrenia

O meu irmão mais velho é esquizofrénico. Na semana passada o Pedro teve que ser internado, deixou de se medicar, rapidamente passou para um estado delirante mostrando mesmo alguma agressividade quando se falava em voltar à medicação. Desta vez nós irmãos resolvemos “poupar” o nosso pai desta situação desagradável, dura, diria mesmo traumática de ter de internar um filho contra a sua vontade. Tudo acabou por correr pelo melhor, ele já no hospital, acabou por assinar uma declaração onde indicava que ficava internado voluntariamente, ficou em regime aberto, isto é, pode se quiser, pegar nas suas coisas e sair em qualquer altura. Vai, provavelmente ficar internado umas semanas.

O Pedro é doente há mais de 30 anos, aprendemos com o tempo a lidar com ele e felizmente sempre tivemos os meios (principalmente logísticos) para que ele conseguisse ter uma razoável qualidade de vida. Em Portugal estima-se que 100 mil pessoas sofram de esquizofrenia, por onde andam? Como vivem estes doentes? Que apoio têm? Que meios e que informação têm os familiares?

As doenças mentais ainda são um tema tabu tanto para as famílias como para a sociedade, os recursos são mínimos, em Portugal para que tenha uma noção da gravidade do problema, apenas 3% do orçamento total de saúde é direccionado para a área das doenças mentais. Se a Esquizofrenia afecta 1% da população portuguesa, calcula-se que 200 mil sofram de distúrbio bipolar e que a depressão afecte entre 10 a 25% dos portugueses. São números que realmente dão que pensar.

Estou agradavelmente surpreendido com a maneira que o meu irmão está a ser tratado no Hospital e surpreendido igualmente pela maneira com que a equipa de médicos está a tratar de nós família, é que também precisamos de nos sentir acompanhados, de esclarecer dúvidas, falar, ouvir e encontrar outros caminhos e soluções para o pós internamento. Uma das conversas que me marcou foi uma médica ter referido que a situação do meu irmão não era nada comum, que são raros os casos em que os doentes têm um apoio familiar minimamente sólido e que normalmente o problema mais comum que se deparam é arranjar simplesmente um tecto para os doentes. Há uns anos li um artigo sobre um estudo feito em Nova Iorque que indicava que cerca de 70% dos sem abrigo da cidade eram esquizofrénicos, aqui em Lisboa não tenho a mais pequena dúvida que os números devem ser idênticos.

... e nós assobiamos ou simplesmente olhamos para o lado.

Nota: pesquisem na net e constatem a reduzida informação que há sobre a esquizofrenia, como mesmo a única associação que há em Portugal não tem nem site nem um número de telefone disponível para ligar. É triste ou mais do que isso, é um verdadeiro drama para milhares de famílias que se sentem completamente sozinhas.

Publicado por amnésia

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Comentários

João, um abraço forte. Pela coragem, porque precisas, por seres quem és, por tudo. Para que o passes também a quem te está próximo.

Publicado por: Tiago em abril 14, 2009 01:09 AM

Obrigado pela força Tiago!

Publicado por: amnésia em abril 14, 2009 09:34 AM

Tremendamente triste e igualmente solitária, a tarefa de cuidar diariamente de um esquizofrénico com um estado muito avançado da doença e com muitas perturbações.
Foi isto que a minha avó fez a vida inteira e, como refere, sem apoio algum.
A nossa família sempre se apoiou para cuidar da minha única tia direita. Hoje, com quase 70 anos, está num lar de 3ª idade dito normal, porque a minha mãe conhece os donos do referido lar e porque, com muito apoio e uma medicação muito vigiada, só muito raramente é agressiva ou desestabiliza o ambiente.
Convivo desde que nasci com esta realidade tão difícil. Com a realidade de viver numa casa onde todos os vidros tinham de ser inquebráveis e onde não era raro assistir a violentas agressões da minha tia aos meus avós e onde, apesar de tudo, ela sempre foi rodeada de carinho e tratada como os demais familiares, dentro das suas limitações obviamente. Mais tarde vieram as auto-agressões, violentíssimas, sempre com internamentos pelo meio.
Sempre admirei profundamente nos meus avós e na minha mãe a capacidade de nunca "esconderem" os problemas, como tantas vezes me apercebi de familiares de pessoas esquizofrénicas que o faziam. Escondiam os problemas e escondiam as pessoas.
Obrigada pelo depoimento corajoso e muita coragem também.

Publicado por: Meg em abril 14, 2009 02:30 PM

Um abraço forte e sentido pela força, pela coragem, pela frontalidade, pela dignidade demonstrada.

Publicado por: CarlosMC em abril 14, 2009 05:50 PM

É realmente muito triste saber que muitos não têm apoio e que estão sozinhos! Felizmente o tio Pedro teve também a oportunidade de se dedicar à pintura e de facto tenho que afirmar que é um grande artista!
Espero que ele volte a pintar em breve!!!
Muita força p a familia!
Um gd bj p todos!
S.

Publicado por: Sara em abril 17, 2009 04:17 PM

FE EM DEUS...TUDO É PENSADO POR ELE.

Publicado por: jOSE aNTONIO em abril 18, 2009 03:21 AM

Olá
Escrevo do Brasil, sou estudante de medicina e pesquisando sobre esquizofrenia para um trabalho que apresentarei amanhã, fiquei super comovida com o depoimento.Esquizofrenia é uma doença que afeta uma família, não só um individuo. Imagino o quão duro deve ser para vcs, familiares, lidarem com isso a tanto tempo.
Desejo muita força e muita luz para a família.
E me pergunto, até quando continuaremos fechando os olhos para as doenças mentais?
o panorama atual de cuidado p esses doente é melhor que o de ontem, mas ainda é absurdo.
Grande abraço,
Vanina

Publicado por: Vanina em abril 21, 2009 04:40 PM

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